
O atletismo invisual
O Atletismo para pessoas com deficiência visual necessita de adaptações e, portanto de métodos de ensino - aprendizagem que venham respeitar e compreender suas necessidades e potencialidades. Abordaremos nesse estudo, uma reflexão sobre propostas pedagógicas visualizadas numa abordagem global do desenvolvimento motor, direccionando-a para a modalidade desportiva atletismo ou, mais especificamente, focando as provas em actividades de corridas , saltos e lançamento. Respeitando as necessidades individuais, discutiremos características gerais sobre a limitação visual e o desenvolvimento motor sob tais condições de aprendizagem.
Carlos Lopes:
“Eu já não via bem desde criança. Para mim o momento em que me considero cego foi quando entrei para a faculdade com 18 anos e decidi comprar uma bengala para me ajudar a circular.”
Por ser uma doença evolutiva, foi mais fácil a adaptação?
Julgo que acaba por ser mais difícil, porque vamos sempre adiando. Ainda vejo um bocadinho, ainda vejo um bocadinho e vamos adiando a solução dos problemas. Acabamos por passar por situações muito complicadas.
Vivia no Bom Sucesso (Alverca) e estudava em Lisboa, utilizava os transportes públicos…
Cheguei a fazer a ligação do Bom Sucesso para Alverca (dois quilómetros) a pé, só a ver as luzes dos candeeiros. Arrisquei muito, às vezes não media o perigo.
Sei que gosta de viajar. Como é que um invisual tira prazer das viagens?
É uma pergunta que me fazem muitas vezes, até os meus amigos. Eu digo-lhes: se vocês acham que eu não tenho o direito de viajar, também acham que eu não tenho o direito de viver. O que perco nas minhas viagens é o que perco no meu dia-a-dia.
Se faz confusão que eu vá viajar, também deve fazer que eu viva.
No futuro admite vir a participar na vida política?
Não me vejo a ir por aí… (risos)
Um ano e meio de trabalho para chegar ao ouro
Quando é que descobriu a vocação para o desporto?
Sempre gostei muito de praticar desporto. Quando era miúdo corria, saltava, andava de bicicleta. Gosto muito da natureza, da praia, da montanha e do campo. Nunca pensei que seria atleta de alta competição. Quando me disseram que era possível fiquei muito satisfeito e comecei a treinar.
Porque é que optou pelo atletismo?
É muito agradável desafiarmos as nossas capacidades e sentirmos que estamos a correr com altas velocidades e com objectivos bem definidos. Depois é o convívio que proporciona. O atletismo é uma modalidade que nos envolve com os outros.
Jamais pensaria fazer natação que é uma modalidade muito isolada.
Campeões paralímpicos adiantam verbas para representar Portugal
Carlos Lopes tem o estatuto de atleta de alta competição desde 1995. Foi dos primeiros atletas paralímpicos a alcançá-lo. Tem direito a dispensa de serviço para estágios e competições e apoio médico e fisioterapêutico isentos de taxas. Há prémios para as medalhas conquistadas e tem uma bolsa mensal.
“Na lei é tudo muito bonito, mas na prática não funciona tão bem”, explica. Os prémios para as medalhas dos paralímpicos são 30 por cento dos atribuídos aos outros atletas, as bolsas são muito inferiores às dos outros atletas e são pagas com grande atraso. “Ainda não recebemos as bolsas de Janeiro de 2005”, refere.
27-08-2003